Passamos o último final de semana do mês de abril visitando a sede da Fundação Nacional do Pau Brasil (FUNBRASIL), no Campo da Sementeira em Glória do Goitá/PE. Chegamos à Fundação por uma amiga que conhecemos em Tambaba, Marisa. Com Marisa sonhamos em voz alta sobre a possibilidade de trabalhar com reflorestamento e ela nos disse que tínhamos muito o que apreender com Ana Cristina, a atual presidente da FUNBRASIL.
Ela estava coberta de razão. Ana Cristina, uma mulher de personalidade forte com um coração cheio de solidariedade nos recebeu em sua casa e nos contou um pouco da história da FUNBRASIL e de seus desafios futuros. Ela também nos presenteou com a oportunidade de conhecer e ver de perto o Pau-Brasil, a árvore nacional que inspirou o nome do nosso país e nos fez brasileiros!
Fizemos tudo isto regados a boa comida (bacalhau, galinha caipira, k-baby, farofa de jerimum, etc.), boa conversa e boa música. Escutamos muito Forró Pé de Serra e chegamos até a conhecer um autêntico festival de sanfoneiros! Uma maravilha!
Bem, voltando a FUNBRASIL. A FUNBRASIL é fruto da paixão do pai de Ana Cristina, o Prof. Roldão pelo Pau-Brasil. Considerado por muitos o Apóstolo do Pau-Brasil, ele dedicou toda sua vida para protegê-lo. Em 1970 iniciou o Movimento em Defesa do Pau-Brasil que foi acolhido dois anos mais tarde pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O Movimento ganhou forca, e em 1978, conseguiu que o Pau-Brasil fosse reconhecido pela Lei Federal – 6.607/78 como árvore nacional. A FUNBRASIL é conseqüência deste movimento.
Criada em 1988, ela produz sistemática e continuamente mudas de Pau-Brasil e outras espécies nativas da Mata Atlântica (com uma capacidade de 150.000/200.000 por ano), promove o reflorestamento e educação ambiental e oferece conhecimentos práticos nas disciplinas de Geografia, História e Ecologia ligadas ao Pau-Brasil. Na sede da FUNBRASIL também é possível conhecer o memorial permanente do Pau-Brasil, fazer trilhas ecológicas por entre árvores nativas e conhecer o roteiro histórico-cultural do Pau-Brasil.
Enquanto desfrutávamos de todas estas atividades, Ana Cristina deixava escapar alguns conceitos importantes sobre o reflorestamento e as lições que apreendera com seu pai e na prática. A primeira delas é a importância do conhecimento prático sobre a matéria prima de trabalho, mais de uma vez ela nos disse que para reflorestar “o importante é a planta!”
Com esta frase que parece óbvia, ela faz um protesto contra a quantidade de recursos gastos em discussões sobre política, modelos, organização de conferências, em comparação com o recursos investidos para aprender sobre as plantas mesmo. Ela apela para a necessidade de produzir/disseminar conhecimento sobre qual a melhor técnica para recolher a semente, qual é o período de germinação, qual a melhor época do ano para se plantar as mudas, etc., etc..
Aprender mais sobre as plantas é muito vantajoso para quem quer preservar pois pode gerar maior eficiência para reflorestar em termos de tempo e quantidade de plantas que alcançam maturidade e trazer respostas para tornar a preservação economicamente viável.
Por exemplo, depois de vários anos de trabalho com o Pau-Brasil, a FUNBRASIL descobriu que uma das espécies desta planta tem o desenvolvimento de seu cerne mais rápido do que outras. Esta espécie, já aos 17 anos (e não com mais de 30 anos como se pensava) pode ser utilizada para produção de arcos de violino, uma das principais razões para sua exploração.
Outra lição que aprendemos com Ana Cristina é a importância de estabelecer uma relação direta com a terra para se tomar consciência da necessidade de proteger, em especial no caso das crianças. Ela gosta de lembrar seus estudantes que atualmente “agimos como crianças que os pais (árvores) as cuidam, limpam suas fraudas, dão de comer e quando crescem se voltam e matam seus pais” e que devemos mudar.
Desde o falecimento do Prof. Roldão, a FUNBRASIL enfrenta dificuldades para manter o trabalho vivo. Muitos parceiros antigos conectavam a existência da FUNBRASIL à pessoa do Prof. Roldão e deixaram de apoiar seus trabalhos após sua morte. Além disso, muito dos recursos investidos na FUNBRASIL para defesa do Pau-Brasil e outras árvores nativas vinham diretamente das rendas mensais do professor que já não estão mais disponíveis.
A luta por recursos esbarra na burocracia do setor público e na falta de capital humano para auxiliar com os assuntos burocráticos. Apesar de todos estes desafios, saímos de lá com a certeza de que a FUNBRASIL é dona de um capital enorme que deve ser valorizado. Esta fundação tem o conhecimento técnico e a capacidade para produzir milhares de mudas de Pau-Brasil, Aroeiras, Cajás, Ipês, Ingás, Pau-de Jangada e outros 30 tipos de árvores nativas da Mata Atlântica.
Os próximos desafios da Fundação incluem vencer o isolamento que se encontra atualmente e conseguir parceiros alternativos ao setor público. Estas parcerias podem promover sua inserção no mundo eletrônico e no novo mercado da vida que está emergindo com o arrocho da legislação ambiental e da consciência para a necessidade de preservação.
As mudas de árvores nativas estão disponíveis para empresas e indivíduos que queiram ou precisam reflorestar. Caso você tenha interesse em adquirir mudas ou sementes de Pau-Brasil ou outras espécies raras da Mata Atlântica, contribuir ou conhecer a Fundação entre em contato com Ana Cristina através do e-mail (funbrasil [at] yahoo.com.br) ou no telefone ((081) 9909-2934).
“A natureza é anti-capitalista porque ela investe o máximo possível, durante um longo período de tempo, para que pelo menos um indivíduo possa sobreviver. Enquanto o capitalismo prega o menor investimento possível, no menor espaço de tempo, para obter o máximo de retorno possível.”
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