Saindo de Fernando de Noronha passamos alguns dias em Natal/RN. A Dani e o Juan Miguel, amigos de uma grande amiga da faculdade aceitaram nos receber. Com eles passamos dias maravilhosos de muita conversa boa e descanso de turismo. Vivemos três dias “normais”, trabalhando no computador, cozinhando em casa e curtindo a tranquilidade de não ter que conhecer nada.
Em Natal a grande atração foi conhecer David Hassett o guardião do Santuário Ecológico de Pipa. Conversamos com ele sobre o Santuário e os desafios que existem para realizar o sonho de encontrar um equilíbrio entre homem e natureza. Durante nosso encontro, David nos fez um convite para não sermos derrotistas e sempre ter esperanças para defender nossa visão do mundo. Ele não foi um derrotista, e hoje, apesar de sentir que não alcançou tudo o que queria, certamente contribuiu com sua parte.
Quando adquiriu o Santuário há quase 30 anos, David sonhava que poderia manter Pipa um lugar rústico e preservado. Ele não conseguiu conter o desenvolvimento da região (ex: o último Plano Diretor da cidade destinou a grande parte do município a expansão urbana), porém seu comprometimento com os futuros visitantes de Pipa e a vida ali presente, fez com que todos os que hoje vão a Pipa possam apreciar parte da fauna e flora originais.
O Santuário Ecológico de Pipa conservou cerca de 90 hectares de Mata Atlântica e garantiu que a praia da Baia dos Golfinhos e parte da Praia do Madeiro continuasse quase selvagem. Além de conservar, o Santuário também oferece atividades de educação ambiental para escolas públicas e privadas e abre seu espaço para o desenvolvimento de pesquisas científicas. Alguns dos pesquisadores que passaram por lá pesquisaram desde mutucas e lagartixas até a geologia e geodinâmica das falésias. Recentemente uma destas pesquisas resultou na descoberta de uma espécie de pássaro nunca antes registrada. Hoje, o principal projeto de pesquisa desenvolvido no Santuário é o Projeto Tamar realizado em parceria com o ICMBio.
A principal fonte de recursos do Santuário é a taxa cobrada para visitação. Visitantes pagam uma taxa de R$5,00 e podem fazer diversas trilhas educativas sobre a Mata Atlântica e apreciar vistas de tirar o fôlego da Baia dos Golfinhos e da Praia do Madeiro, entre outras. Se estiverem com sorte, os visitantes podem chegar a ver algum membro da fauna do local. Nós vimos uma família de Jacu quando caminhávamos na trilhas e várias tartarugas marinhas quando paramos no Mirante das Tartarugas!
Os recursos arrecadados com os visitantes são suficientes apenas para a manutenção do Santuário e não sobram para fazer investimentos para melhorias. Segundo David, os desafios para conseguir mais recursos são muitos. Por um lado, as parcerias com o setor público, apesar de necessárias, na maioria das vezes se dão por curto prazo e de forma não sistemática, dificultando assim a obtenção de resultados significativos. Por outro lado, o Santuário não conseguiu arrecadar muitos fundos no mercado privado. Tentou-se explorar sem sucesso o mercado de mudas e sementes nativas. Atualmente, o Santuário avalia a alternativa de converter as pesquisas isoladas em pesquisas sistematizadas, de forma a facilitar o aumento de parcerias institucionais.
David também se preocupa com o futuro do Santuário. Pensando em assegurar que o Santuário continue existindo por muitos anos mais, ele decidiu transferir os direitos de propriedade e sua administração a uma fundação que será criada para cuidar do Santuário. Esta fundação será composta de pelo menos 23 amigos e ambientalistas, dos quais vários deles compõem órgãos ambientais importantes como o ICMBio e o IDEMA (órgão ambiental do Rio Grande do Norte), enquanto outros são moradores de Pipa que exercem variadas funções.
Para além do Santuário, também conversamos muito sobre o desenvolvimento de Pipa ao longo dos anos que David esteve aí. Ele relata com tristeza que o Chapadão, uma falésia situada no fim da Praia do Amor, antes era composta por formações rochosas irregulares e raras e hoje é um terreno plano. Um trator destruiu todas as formações rochosas que existiam ali para facilitar o acesso de visitantes e construção civil. Ele também nos contou com pesar, que as áreas localizadas à beira da falésia, que guardam uma linda vista do litoral, hoje são, em sua grande maioria, de propriedade privada e de acesso restrito.
O relato de David sobre o desenvolvimento de Pipa, e o fato de que áreas como a do Santuário são exceção e Resorts são a regra, confirmam o que estamos descobrindo nesta viagem: natureza é luxo. Para desfrutar da natureza o cidadão tem que pagar caro, no caso de Pipa, o custo é a diária de um dos Resorts ou pousadas.
Não deveria ser assim. Como bem nos lembrou David, a zona à beira-mar é patrimônio da União. Como tal, a União deveria garantir o acesso de todos e proteger a beleza que cobre/cobria o litoral do Brasil para apreciação de todos. Infelizmente, o governo prefere vender estas terra para exploração de poucos e arrecadar fundos com a taxa de ocupação!
Enfim, com David e o Santuário aprendemos que não podemos mudar o mundo sozinhos, mas podemos nos esforçar ao máximo para fazer nossa parte, David certamente fez a sua. E você?
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